terça-feira, 30 de agosto de 2011

Cortar, suturar e fechar.


"Para ser um bom cirurgião, você tem que pensar como um cirurgião. Emoções são uma droga. Deixá-las de lado e entrar em um quarto limpo e esterilizado, é um procedimento simples. Corta, sutura e fecha.
Dizem que a prática faz a perfeição. Na teoria, quanto mais pensar como um cirurgião, mais você se torna um. O melhor a fazer é permanecer neutro, clínico. Cortar, suturar e fechar. E fica cada vez mais difícil desligar isso...parar de pensar como um cirurgião e se lembrar do que significa pensar como um ser humano." 
        (Grey's Anatomy - 2º temporada)


Quando morei em São Paulo, me lembro de nas primeiras semanas sair para caminhar perto da Av. Paulista e reparar, no retorno para a minha moradia, as muitas pessoas miseráveis. Pessoas comendo as coisas do lixo, dormindo na calçada, literalmente morando debaixo da ponte. Isso doía, muito. Ficava meio perturbado. Passado algum tempo acabei neutralizando e comecei, na maioria das vezes, a tentar ignorar este fato, desviar o olhar para poder seguir adiante. Óbvio que isso também ocorre na minha cidade e outras menores, mas não é tão gritante como em uma metrópole. Não que eu tenha ficado totalmente frio, mas acho que é natural que acabemos, de alguma maneira, selecionando o que realmente nos comove.
Quando freqüentar hospitais e laboratórios virou uma rotina, senti meu olhar se modificar aos poucos. Não era aquele olhar de antes, de dor ou mesmo pena, também não era mais o olhar frio... era um novo olhar. Talvez um olhar mais real. Acredito que, de certa forma, passei a olhar para as pessoas de verdade, com suas expressões de culpa, vergonha, dor, medo, alívio, alegria e esperança. Entendi como a sociedade acaba nos impondo uma camada “protetora”. Só não sei ainda quem ela realmente está protegendo. Se é quem sofre ou quem assiste...

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